24.9.08
NOVA FACE DA LITERATURA ATUAL
A literatura contemporânea, a partir dos anos 90, configurando-se, com maior intensidade, nos primeiros anos deste milênio, apresenta uma nova face, com mudanças substanciais que modificam a estrutura narrativa e ensejam uma outra forma de contar histórias, diferente do modo existente no restante do século XX. Isto não significa que atuais escritores tenham todos assumido essa nova estrutura, pois há, ainda, aqueles que ainda utilizam a antiga forma que consagrou o movimento modernista de 22, no Brasil e o modernismo, em época anterior, no mundo, subsistindo até nossos dias.
Escreve-se, ainda, de forma linear contando fatos seguidos e de forma separada por capítulos, atendo-se o escritor ao título do capítulo, contando por partes estanques o desenvolvimento de cada personagem na história. Uma estrutura tradicional, que vem sendo abandonada, também, em função de novas tecnologias, como os romances contados por mensagem de texto, pelo celular, muito usada no Japão e na França.
Em especial no Romance, assim como em alguns contos, são escritas histórias, atualmente, com um entremear de fatos, como em uma colcha de retalhos com unidade. Passa-se de um assunto ao outro no texto do mesmo capítulo, sem perder o fio da meada, com maestria, retomando a passagem do personagem pelo livro, em outro momento, sem abandoná-lo.
Livros como Amor em Minúscula, de Francesc Miralles, O Homem Lento de J. M. Coetzee, prêmio Nobel de Literatura, em 2003, e O Homem no Escuro, de Paul Auster são exemplos dessa nova maneira de escrever, sem falar no livro do Coetzee, posterior ao citado, traduzido como Diário de um Ano Ruim. Este livro se propõe a fazer filosofia em forma de ensaio, paralelamente, ao contar, em pé de página os fatos narrativos do romance.
Ele o faz de maneira diferente a Milan Kundera em seu A Insustentável Leveza do Ser, onde há uma separação entre o ensaio filosófico e a história contada, fazendo com que o leitor não interessado em filosofia aplicada pule essa parte. Desse modo, fica “massudo”, inconveniente até, essa intenção declarada do autor de misturar texto filosófico com o simples contar de uma história.
Isso não acontece em Coetzee, pois a parte principal do romance é o ensaio e como adendo, separadamente, no final de cada página, em fonte diferente, narra os fatos que ensejam a história, propriamente dita, do livro. São formas diferenciadas de contar uma história dentro da história no mesmo volume, que prendem a atenção do leitor que nunca sabe o que se segue no parágrafo seguinte.
Não há a previsibilidade do romance linear em que fica definido, a priori, sobre qual personagem o escritor vai falar, tornando cansativa e pesada a leitura, como acontece nos folhetins televisivos, chamados, no Brasil, de novelas. Esses exemplos são formas inovadoras de fazer literatura de ficção, buscando no talento dos escritores a mesclagem de histórias.
Na mesma história de forma seguida e inteligente, sem necessitar dos artifícios editoriais de mudança de assunto, como o distanciamento dos parágrafos ou a separação gráfica por linhas ou seqüencias de asteriscos, o escritor contemporâneo usa de seu talento para não se perder, “degringolando” a história. Mas é preciso ter talento mesmo, muito exercício, bastante estrada percorrida, para se escrever dessa nova forma.
Saraiva Filho 24/09/08
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