22.9.08
A DEMOCRATIZAÇÃO DOS BENS CULTURAIS
O termo democracia é, na maioria das vezes, usado de forma indevida, provocando uma grande confusão na sociedade, que busca direitos que não lhe pertencem ou utiliza o termo em qualquer situação que favoreça um argumento. No caso dos bens culturais, democratizar significa dar aceso e oportunidade a quase todos os integrantes de uma nação aos bens produzidos pela sociedade.
Quase todos, de vez que a maioria, por ignorância ou descaso, não se interessa pela cultura e pela arte que faz pensar, como a chamada arte erudita e a contemplação arquitetônica e existencial de museus e costumes, como os gastronômicos, de nosso povo. Haveria necessidade de uma conscientização nacional em torno dessa questão, mesmo em um país de desigualdades repugnantes.
Para tornar democrático o acesso aos bens culturais há a necessidade de uma espécie de infra-estrutura intelectual que precisa ser cultivada. Torna-se difícil entender isso, em um país de cerca de 18 milhões de analfabetos, tendo uma frágil escolaridade e toda uma carapuça de desinformação, nos mais diversos níveis sociais, principalmente no enorme interior nordestino, sem falar nos recônditos lugares do sul do país.
Além do mais, é necessário um conhecimento global da cultura ocidental e oriental, criando uma visão geral que atenda a um entendimento de processos culturais locais. Não é possível fazer o caminho inverso da cultura local para a geral, promovendo ações culturais populares e isoladas e exigir que a população tenha livre consciência de nossos bens culturais.
Há que se considerar, também, que a cultura produzida no sul, mais especificamente, no Rio Grande do Sul, espalhando-se por outros Estados sulistas, é totalmente diversa e desconhecida do resto do país, sem que essa integração tenha sido fortalecida. É um outro mundo cultural, em nome do qual são buscadas ações separatistas, há longos anos, um ideal que nunca morreu apenas se acalmou.
Abrir oportunidades para que as pessoas deste país conheçam e se integrem a seus bens culturais está quase na mesma proporção de facultar ao público o conhecimento existente na NASA sobre o Cosmos ou seus programas de conquistas, a pessoas comuns. De nada adianta se falamos para leigos que precisam ser preparados antes, na escola, em programas especiais e de outros modos, para receberem a carga de conteúdo que irão encontrar pela frente, quando tiverem o acesso devido a esses bens.
Essa preparação é indispensável para entender os ready-made de Duchamp, assim como o arroz de cuxá nordestino, em especial do Maranhão e não se sentir deslocado ou atônito, pelo desconhecimento do que se trata. Esse acesso aos bens culturais não é somente físico, através da presença das pessoas, mas requer todo um conglomerado de conhecimentos aprendidos, para não se ter que usar o dito popular “burro olhando para palácio”.
Saraiva Filho 22/09/08
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