11.8.08
A CULTURA DO CÂMBO MULETA
Um país subdesenvolvido sempre viveu com seus prognósticos econômicos baseados na diferença do câmbio para mais, em relação ao dólar americano. No caso brasileiro não há, na verdade, lucro na empresa, mas um ganho com a diferença entre o valor do dólar estadunidense e a moeda nacional, podendo os produtos se tornarem baratos lá fora, sob uma base falsa.
Nunca se cuidou da questão da produtividade, da consecução de preços baixos para os insumos e de mecanismos de baratear a questão da mão-de-obra especializada, de vez que há a garantia do “lucro” pela diferença de cambio da moeda.
A indústria exportadora, como a calçadista, a de aeronaves e tantas outras, sempre viveu pendurada no câmbio, jamais trabalhando com lucros reais, advindos de venda dos produtos, no mercado internacional, por um preço que correspondesse ao real valor do produto. São competitivos os preços, porque há a diferença do valor do dólar e não pelo valor intrínseco do produto.
Isso traduz uma falsa exportação, ao sabor do câmbio do dia e jamais preços fixos para os produtos. Na realidade, não há lucro, mas especulação financeira na atividade de exportar, causando prejuízo ao país, que fica amarrado a uma moeda nacional fraca, sob pena de caírem as exportações.
Uma moeda fraca e instável desestabiliza o investimento externo e o Banco Central é obrigado a manter as taxas de juros altas, para atrair investidores em dólar. É um raciocínio perverso e estrangulador, quando se dá a intervenção do governo na cotação do dólar, para que o real caia, sob a alegação de conter o consumo e, consequentemente, a inflação.
Agora mesmo a EMBRAER, em nota oficial, anuncia a demissão de 250 funcionários e vem a FIESP e diz que é por causa do câmbio. Deviam esses industriais se envergonhar desse raciocínio, de vez que é querer legitimar a especulação, em vez de modificarem seus métodos de produção, buscando um produto mais barato.
Produtos esses que pudessem, pelo preço e pela qualidade, modificar o quadro de exportação, sem se valerem do câmbio como muleta para a venda internacional, tornando uma exportação auto-sustentável, independente dos humores do valor do dólar aqui dentro do Brasil. É lamentável que uma economia que se diz emergente ainda se prevaleça desses expedientes escusos para a sobrevivência das exportações.
Em todos os países desenvolvidos, quanto mais baixo o câmbio, em ralação a outras moedas internacionais, mais saudável se torna a economia. No Brasil, é ao contrário pelo fato de não se fazer venda de produtos, embora as vendas em si ocorram, mas baseadas na especulação da moeda, até nos produtos industrializados para o consumo interno.
A culpa é sempre do preço do dólar, sem que se esclareça que a indústria vive pendurada em bancos, cobrindo déficits de operações, quando o câmbio está em baixa e o dólar quase se iguala ao real. É uma indústria que não se sustenta com as próprias pernas e tem a coragem de culpar o câmbio para encobrir sua deficiência.
Saraiva Filho 11/08/08
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