20.7.08
O FIM DE UM REINADO
A morte de Dercy Gonçalves, ontem, dia 19/07, não foi propriamente o fim de um reinado que durou mais de oitenta anos de existência. Ficou na lembrança de todos não só a irreverência para a época, mas a forma guerreira de lutar por sua carreira, inclusive usando o que chocava na época, que era a pornografia verbal.
Hoje, essa fórmula pertence a um passado que a cada dia se distancia e, por isso, não surte mais o mesmo o efeito da época em que ela usava e abusava desse expediente matreiro, Já não são mais censurados os palavrões e as frases pornográficas que usava e eram cobertas por um ruído pelas estações de TV. Lia-se apenas em seus lábios o que era dito e provocava muitas gargalhadas dos telespectadores, porque eram usadas no time certo da piada, de forma inesperada e nada sutil.
Eram mais que as insinuações de Zé Trindade, no cinema brasileiro, dos filmes da Atlântida, por serem diretas e contundentes naquele moralismo em que se pensava que só a TV entrava nos lares católicos e suas tiradas iriam compuscar a tradicional família brasileira do anos 50 a 70. Essa fase se esgotou e a juventude mesmo tratou de, além das gírias modernas, trazer para dentro de casa os palavrões, ditos, abertamente, sem qualquer censura dos pais.
Novos tempos se instalaram, com a internet mais presente que a TV, embutindo toda uma pornografia em vídeo e não mais apenas verbal. A Dercy de seus chistes “inconvenientes” ficou na sua própria casa, embora continuasse trabalhando até a morte e com projetos futuros de um show aos 101 anos de idade.
Deixou saudade por seu modo, sem modos, de ser, pela sua ousadia, pelas lutas que travou para ser alguém na vida e conseguir um lugar ao Sol, às custas de ser diferente dos padrões convencionais, sempre inovando e surpreendendo, até que os novos tempos a engoliram, na sua idade provecta. Seus sofrimentos pessoais, inventados ou não, a respeito de sua vida sexual e de seus maridos, foram, por muito tempo, a bucha de suas entrevistas e dos textos de seus shows.
Deixa saudade, mas uma saudade bem nostálgica, mais do que as saudades comuns, não, propriamente por sua genialidade, mas pelo toque inesperado que dava a suas apresentações, que foram consumidas pelo tempo. Chegou ao ponto de não ter mais graça as suas tiradas, pela fórmula desgastada do formato de seus programas na TV, mas, mesmo assim, lutou, enquanto pôde, para se manter ao nível do mar do sucesso.
Deixou, sem dúvida, um trabalho com certo mérito, sem os espalhafatos dos grandes mestres, mas também sem o nível medíocre do tantos outros. Soube se destacar, enquanto estrela do pornô verbal. Apenas não teve a maturidade, com a idade que tinha, de se retirar de cena no momento certo, o auge de sua carreira. Apenas foi comediante, já às avessas, durante o tempo que deu para se manter trabalhando, quase destruindo o patrimônio cultural e de entretenimento que construíra.
Saraiva Filho 20/07/08
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