LiberdadeDaPalavra

ARTIGOS sobre fatos políticos, econômicos e sociais. Liberdade, palavras e ações.

9.7.08

CERTAS CONTRADIÇÕES DA DEMOCRACIA

Que a democracia não é um sistema de governo perfeito, quase todos sabem, mas há vantagens e contradições. Essas contradições embaraçam o desempenho de oportunidades e deixam ao desamparo alguns direitos humanos, inclusive a liberdade de expressão, quando não a própria liberdade física.

No 5º Fórum Atlântico, organizado pela Fundação Ibero-América Europa – FIE, na mesa redonda Diálogo Cultura e Liberdade, o escritor peruano Vargas Llosa participou como moderador e houve como debatedores os escritores cubanos Rafael Rojas, Zoe Valdés e Raúl Rivero e a jornalista Rosa Montero. A pedra de toque do debate foi a liberdade em Cuba, a começar pelo romancista Vargas Llosa que afirmou: “Só em uma sociedade livre é possível comprovar a diferença extraordinária que é viver sem medo de delação, da vigilância policial ou viajar, livremente, para o estrangeiro”.

A escritora Zoé Valdés acusou o governo cubano de ter trocado os “ataques diretos” aos artistas dissidentes no exílio, por outra “mais sutil”, na qual cubanos a favor do governo “se instalam no exterior e se dedicam a criticar os opositores, os artistas, os poetas ou os presos na Ilha”, disse Zoé. Por seu turno, Rafael Rojas foi mais contundente ao ressaltar o “respaldo acrítico” de alguns setores ao governo cubano “ à eficaz difusão de fantasia sobre o passado e o presente da Revolução, fazendo louvação a um fato que não existe mais, de vez que a revolução acabou há muito tempo.

Essa “pobreza moral”, como disse a escritora Valdés, delapida o sentido da utopia de um governo que se pretendeu igualitário e terminou totalitarista, com um ditador quase perene à frente, impedindo quem fosse contrário a seus pontos de vista, de manifestar, expressamente, sua opinião, punindo-os com o cárcere. Com esse direito fundamental sufocado à força, não pode haver a igualdade entre as pessoas, muito menos a liberdade sonhada por Vargas Llosa, que disse que os países democráticos têm “ a obrigação moral de ajudar os cubanos a recuperarem a liberdade, que só é valorizada quando se perde”.

Enquanto isso, do lado de fora do evento, os pró-castristas pediam a liberdade para cinco pessoas acusadas de espionagem presas nos Estados Unidos e a permissão para que recebam visitas de suas esposas. Esse aspecto do tolhimento à liberdade de expressão existe tanto do lado chamado democrático, na maior parte das vezes, com uma censura sutil, mas eficiente, quanto do lado totalitário, sendo a “censura democrática”, talvez, mais perversa do que a outra, geralmente, explícita, de vez que feita impingindo um temor conceitual, do tipo “não é bom falar dessas coisas”, quando não prende as pessoas do mesmo jeito, mas em nome da liberdade.

Um fato demonstrativo disso foi, nessa reunião, que se poderia dizer acadêmica, uma cidadã cubana elevou a voz, acusando os participantes do fórum de apenas fazer a crítica de Cuba, sem apresentar nenhuma proposta de iniciativa para fornecer essa ajuda tão requerida. Contraditoriamente, teve a sua palavra cassada, fazendo com que Vargas Llosa usasse seu poder de moderador do evento, contrariando, ali mesmo, com ações, as suas palavras e a de seus colegas e confirmando que ser democrático não é só falar, mas tem que agir, democraticamente, a todo momento.
                                           Saraiva Filho                        09/07/08

criado por SARAIVA FILHO    5:16 — Arquivado em: Sem categoria

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