15.6.08
TRIBUTO A JAMELÃO
O universal Jamelão deixa vazia, com sua morte, a música brasileira, em especial o samba da Mangueira, onde se tornou o ícone dos puxadores das escolas de samba, sem que se esqueça todo o seu trabalho como cantor internacional. Além de cantor, José Bispo Clementino dos Santos – o Jamelão - era compositor de várias músicas de sucesso e sabia interpretar como ninguém músicas de Lupicínio Rodrigues, como “Esses Moços” e “Ela Disse-me Assim”, alem de outras como “Nunca” e tantas mais.
Com sua voz rouca, com timbre negróide e uma cadência inigualável aquele homem grande, forte, tinha a sensibilidade que manteve até o fim, com seus 95 anos de idade, a saúde já abalada, mas sempre um estandarte de dignidade, trilhando caminhos nem sempre da sua área. Aos 93 anos, desfilou por uma grife famosa, recebendo calorosos aplausos de enorme público, talvez não tão densos quanto os da verdadeira apoteose de outros fãs, que sempre o recebera, durante 50 anos, comandando o espetáculo majestoso de incentivar o público na travessia pela avenida de sua escola, a Mangueira de seu coração.
Adolescente engraxate foi descoberto por acaso numa demonstração particular de rua, expondo sua alegria no intervalo do trabalho e levado para cantar em gafieiras da capital fluminense, onde recebeu, não se sabe de quem, o apelido de Jamelão, uma fruta escura, dura e pouco comercializada. Retrato exato da personalidade de José Bispo, que, como cantor de música popular romântica e de sambas antológicos, não se deixava manipular por gravadoras, entrando na roda viva de cantor moda, de fácil ascensão.
Entrou na música pela porta da frente, construindo seu prestígio com o talento excepcional de que era possuidor e, onde quer que se apresentasse sempre com sobriedade e altivez, elevava a música brasileira a um patamar superior. Era um homem forte, duro como a fruta de seu apelido que, com 93 anos, ainda, fazia três horas seguidas de show e conseguia empolgar a Sapucaí, evoluindo, de forma peculiar, a música contagiante ou não de sua escola.
Apresentou-se na Europa, em especial na França, onde deixou sua marca inconfundível de músicas introspectivas e sambas esfuziantes do carnaval brasileiro, empolgando platéias internacionais com a grandiosidade dos grandes mestres e a beleza de ser um entusiasta da música. Afastado do carnaval desde 2007, foi obrigado a curvar-se à doença e aos transtornos da velhice, mas sem nunca perder, mesmo de longe, o entusiasmo e o enlevo das apresentações da Mangueira na avenida. Sentia-se empolgado e empolgando os foliões, na composição dessa festa grandiosa que é o carnaval do Rio de Janeiro.
Cada um presta seu tributo da maneira que sabe fazê-lo, com a maior eficiência e desvelo e, sem saber homenageá-lo com música, faz-se com palavras, ingrediente que pode estar, também, na música, expressando o respeito, a deferência e o reconhecimento a essa figura ímpar da cultura do Brasil.
Saraiva Filho 15/06/08
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