14.6.08
A ARTE DESPROTEGIDA
A arte, no Brasil, é tratada, basicamente, como um subproduto de fachada de atuação governamental, sem políticas públicas de auto-sustentação, ficando a atuação nessa área à mercê do humor de governos e dos empresários mecenas. Ao centralizar no Ministério da Cultura os recursos para a enorme diversidade de arte que existe, além da cultura popular, fica evidente que muitas dessas artes ficarão de fora das asas protetoras (sic) desse órgão público.
Não é desse jeito que se coordena o setor das artes no país, desmotivando pessoas e instituições que se interessam em atuar e promover o setor artístico nacional. A definição clara de políticas voltadas para a arte, seja como atividade empresarial, seja como atividade pública, torna inócua qualquer atuação do Ministério da Cultura nesse setor.
Com os olhos voltados para a cultura popular, essa instituição governamental privilegia áreas desse tipo de cultura, tornando patrimônio cultural do Brasil comidas típicas, músicas, brincadeiras populares, que já fazem parte da história do país. É certo que desse campo deve cuidar o Ministério, porém, jamais, em detrimento da cultura erudita, jogada às traças nos escaninhos dos programas de computador, em arquivos nunca abertos, nem para consulta.
Os mais recentes roubos nos museus brasileiros é uma prova cabal dessa desproteção material, locais onde não há segurança, sem detectores de metais, serviços de câmaras eficientes, em se tratando de prédios que têm um conteúdo bastante valioso, a preços de mercado. A não ser velhos vigias, na maior parte das vezes, sem uma arma, atrelados a um sistema de controle de visitantes, ficam os prédios entregues à vontade dos ladrões especializados.
Sabe-se que o roubo de obras de arte ocorre no mundo inteiro, mesmo onde há respeito e diligência no serviço de segurança, sendo mais uma razão para que se implante um sistema eficiente de guarda, conservação e manutenção desse patrimônio. Mas a desproteção da arte está mesmo em um plano mais alto, mais abrangente, envolvendo a questão da produção, divulgação, fiscalização e orientação do setor artístico.
Se o Brasil não conseguiu impedir a devastação da mata atlântica, não está impedindo o desmatamento da região amazônica, quer tratar o biocombustível, paralelamente, à produção de petróleo, sem dar prevalência ao primeiro, o que se pode exigir para a arte? Óbvio que não pode se exigir que o alimento da alma seja tratado com seriedade e vigor necessários ao seu desenvolvimento.
Muitos acreditam, ainda, literalmente, que a arte é inútil. Mas essa visão estreita está contida, apenas, na concepção específica de um capitalismo que vê na arte, somente, um produto mercadológico, sem atentar que, mesmo em um capitalismo mais avançado e inteligente, é uma fonte de renda impressionante. O Brasil, como governo, não enxerga isso e fecha os olhos cegos para um setor dinâmico e enaltecedor do ser humano.
Saraiva Filho 14/06/08
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