12.6.08
A CULTURA POPULAR E A NORMA CULTA
Valorizar a cultura popular, como expressão genuína e espontânea do povo deve ser incentivada até certo ponto e depois passar para a história como lembrança e exemplo de resistência e adaptação de um povo sofrido pela escravidão ou pela pobreza nordestina. Caberá aos historiadores manter vivo nos livros, nos estudos e pesquisas esses costumes, festanças e hábitos, principalmente, os causos relatados na linguagem oral.
Ainda hoje, mantêm-se a existência da linguagem escrita descrevendo causos, como acontece com os patativa do assaré nordestinos, fazendo versos com história da vida do caboclo, não se utilizando da norma culta. Apenas descreve fatos com uma linguagem escrita com a pronúncia das palavras, sem obedecer ao que determina a língua oficial, embora, em se tratando de poesia, poderia haver, com limites, a chamada licença poética.
Como acontece em outras manifestações de cultura popular, alguns intelectuais ou ditos intelectuais endeuzam o primitivo, enquanto ausência de conhecimento. Em si, é uma contradição, de vez que não valorizariam essas manifestações se não tivessem o conhecimento da importância delas, para vários campos do conhecimento, como a Sociologia, a Antropologia, etc..
Esse comportamento é um negar-se a si próprio como intelectual, desejando manter vivas essas tradições, que já não se auto-sustentam, a não ser servindo de exotismo para estrangeiros deslumbrados, que em nada contribuem para a preservação da “brincadeira”, mas apenas para a indústria turística. Inclusive esses “gringos” levam do nosso país uma imagem de local atrasado e de um povo rudimentar.
Mas o problema maior é denegrir a língua culta, instrumental indispensável ao desenvolvimento de um país, língua por meio da qual se discute, analisa e constrói o conhecimento científico e tecnológico, necessários ao aprimoramento e crescimento de uma nação. A língua e a linguagem cabocla ou caipira não permite que se participe de uma mesa de negociações para, por exemplo, validar e conscientizar europeus e americanos do norte da importância do etanol.
A cultura popular, em seus mais diversos aspectos não é, propriamente, a raiz de nossa cultura, mesclada por outros povos de origem intelectualizada, mas, apenas um subproduto, oriunda de um povo que não pôde se instruir e que não sabe manipular o conhecimento aprendido na escola. É, também, o subproduto de valores, eivados de fantasia, mistério e crendices, por pura ignorância.
Os tais intelectuais se encantam com a onda de “democratização” do conhecimento, que seria trazer esses assuntos populares à uma pauta de discussões, porque está na moda aparecer como “liberal”, de uma liberdade inócua. Ir contra a norma culta, favorecendo poesias caipiras, vende, é apreciada por pessoas de nível intelectual baixo ou aqueles que têm um verniz, mas querem revalorizar uma coisa ultrapassada, valorizando coisas sem valor teórico, sem substância.
Com essa brincadeira de valorizar, quer-se mostrar que ficaríamos no mesmo patamar da ignorância e nem precisaríamos ir à escola, para aprender a norma culta. Mas sem essa norma, não se pode analisar e discutir Patativa do Assaré ou Ariano Susassuna, sem um conhecimento prévio de conteúdo educacional.
Saraiva Filho 12/06/08
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