LiberdadeDaPalavra

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29.5.08

A ÉTICA E OS NUS ARTÍSTICOS

 
A censura à obras de arte que apresentam em seu conteúdo nus é uma constante ao longo dos séculos e , ainda hoje, é bastante visível em localidades onde prevalece o domínio religioso. A religião, qualquer que seja a seita , seja a católica, a protestante , a mulçumana ou outras mais tradicionais vê o nu, mesmo o artístico, como uma ofensa a seus princípios morais, que são os predominantes na sociedade, em geral.

Na Austrália, recentemente, a atriz Cate Blanchett expressou sua solidariedade ao fotógrafo Bill Henson, que expôs imagens de adolescentes seminuas, gerando um retorno à tradicional discussão entre arte e pornografia. Essa solidariedade se fez sentir através de um comunicado em conjunto com famosos australianos, ligados à arte. A nota destaca a humilhação que sentem “ pelos planos de aplicar em Henson as leis contra a obscenidade”.

Os signatários da carta afirmam, dentre outras coisas, que: “ A possível perseguição a um de nossos artistas mais respeitáveis não é a forma de construir uma ‘ Austrália Criativa’ e prejudica nossa reputação cultural”. Acrescenta, ainda, que: “ O debate iniciado pela exposição de Henson é necessário e importante. Temos que discutir as questões éticas da arte e os problemas que gera, mas esta discussão não pode acontecer em um tribunal de justiça”.

A polícia fechou uma exposição de Henson na galeria Roselyn Oxley, de Sydney e apreendeu 20 imagens de jovens de 12 e 13 anos, com a parte superior do tronco nua. A Galeria Regional de Arte, da localidade de Albury, após receber a visita de agentes da ordem, retirou três fotografias do artista que tinham sido denunciadas como “indecentes” e a Prefeitura de Newscastle tirou as obras de seu site.

Enquanto o primeiro-ministro do país, Kevin Rudd, qualificou de “repugnantes” as fotografias e pediu respeito aos direitos dos menores, Herson e sua preocupante e perturbadora visão da adolescência representou a Austrália na Bienal de Veneza. Vários trabalhos seus são exibidos no Guggenheim, de Nova York e na Biblioteca Nacional de Paris.

A aceitação de sua obra por um público mais esclarecido e com amplitude mental demonstra que este sabe fazer bem a diferença entre o sensual, o erótico e o pornográfico e a preocupação psicológica e social de um período difícil da vida, pelo qual todos passamos. A mentalidade provinciana e distorcida da realidade impede que artistas, com seriedade, tratem de assuntos importantes e atuais em sua arte, sem copiar paisagens, jarros de flores, cavalos e outras futilidades sem a conotação de arte.

Isso lembra os casos brasileiros recentes de censura, como as fotos de Rogéria, em pose sensual, extirpadas de uma exposição no Congresso Nacional, que foram retiradas da amostra, por denúncia de setores conservadores da sociedade e seus representantes. Outro caso foi a concepção de um órgão reprodutor masculino, um pênis, que teve seu contorno “desenhado” com um terço católico.

Duas censuras despropositadas, quando longe estava o desrespeito à moral e o ataque a uma fé religiosa, mas a demonstração de alternativas artísticas com o que temos no dia-a- dia. Esse mesmo cotidiano que aceita passivo a pedofilia de padres e outros religiosos e rejeita, com atitudes homofobistas, a demonstração homossexual explícita, em passeatas e atitudes humanas comuns, encobrindo uma hipocrisia deslavada, sem saber distinguir o que é ética e pornografia.
                                                      Saraiva Filho              29/05/08

criado por SARAIVA FILHO    5:50 — Arquivado em: Sem categoria

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