18.5.08
ZÉLIA, ANIMAIS E HUMANOS
As contradições da vida, ainda, surpreendem como a morte, ontem à tarde ( dia 17/05) de Zélia Gattai, escritora e fotógrafa que casou com Jorge Amado. De fã incondicional do escritor, passou a ser esposa e, incentivada por ele, a ser escritora de sucesso, por seu talento, antes revelado na sensibilidade da fotografia que tirava dos lugares onde ficou exilada e da vida pessoal e profissional de ambos.
Símbolos de uma geração que se foi, cedem o lugar a novos talentos que vão eclodindo, apesar da mídia fora de prumo não enfocá-los, apenas a fofoca gratuita, a nudez sem sentido e a politicagem degradante, que resvala na corrupção. Mas essa continuidade de gerações permanece, encerrando-se um ciclo agora, com a ida de um mito, abrindo espaço a novos tempos e valores, novas idéias e à adequação a um mundo novo que nos afronta em sua forma bio, traçando horizontes despudorados e grávido de novas oportunidades, novas lutas, outros ideais e a promessa constante de um caminho a seguir.
Essa “contradição de seqüência”, da extinção e da criação, observa-se na pesquisa sobre a inédita relação entre o tucano-toco e a arara-azul, no Pantanal Mato-Grossense, gerando um equilíbrio para a sobrevivência dos dois tipos de animais. Estudo da UNESP, publicada na Revista inglesa Biological Conservation, demonstra que o tucano-toco se alimenta os ovos da arara-azul, mas, ao mesmo tempo, alimenta-se do fruto manduvi. Ele é a única espécie de tucano que o abre e come as sementes dessa planta, em processo de extinção, da qual a arara-azul faz seu ninho.
O ninho dessa ave é feito apenas desse material, que o tucano-toco dispersa. Isto significa que a arara-azul depende, para se reproduzir, indiretamente, do trabalho desse tipo de tucano, mesmo ele destruindo os ovos da arara. É uma relação com o inimigo-amigo, como se dá entre os humanos, na interdependência para sua sobrevivência, em todos os níveis, de forma sutil, com aparência amistosa ou agressiva e brutal.
O Homem queima o canavial, afetando muitas outras pessoas em volta, trazendo problemas respiratórios, de pele etc., para a plantação e a colheita da cana-de-açúcar, que beneficiará esse mesmo homem atingido pelos efeitos da queimada, produzindo carbono e interferindo na vida do planeta. Mas, desse produto colhido de forma errada, por ser mais rápida e econômica, advém o açúcar, o álcool anidro e o hidratado, gerando nova matriz energética, sem poluição para o planeta e o Homem.
Zélia se foi, deixou sua obra, demarcou os limites intelectuais de seu tempo, mas dá chance, indireta a novos artistas, assim como o tucano-toco e a arara-azul, que, se fossem humanos, teriam algum relacionamento amoroso, um envolvimento mais profundo, embora nos três casos, de Zélia, dos animais e dos humanos, sempre haja perdas e ganhos impostos pela natureza, nessa alucinante corrente, que faz o mundo girar e as coisas acontecerem.
Saraiva Filho 18/05/08
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