8.5.08
JUSTIFICATIVA DE UMA RECUSA
Até o dia de hoje, qualquer referência deixou de constar do LIBERDADE DA PALAVRA sobre a morte da menina Isabella Nardoni, não por apatia ou descaso por essa tragédia que a mídia fez o Brasil se inteirar, se envolver, e tomar partido, como um processo popular, na Atenas da Antiguidade Clássica. A forma parcial com que cada passo dado pela polícia e pelo setor de perícia era informado ao público chocou as mentes mais aguçadas, como foi levada a chocar a opinião pública.
O crime cometido foi hediondo, bárbaro, inconcebível para quem possui equilíbrio mental razoável, uma agressão aos ditames da vida em sociedade, nos aspectos moral e da lei, uma morte desnecessária – porque há as necessárias, para os casos de doença terminal, com bastante sofrimento pessoal do doente. Morte injusta de uma criança, atitude perversa, insana e por motivo fútil, não há a menor dúvida.
Nada disso, porém, justifica uma outra atitude, a da mídia, que fez teledramartugia, como uma telenovela qualquer, baseada em fatos reais. A cada dia havia um capítulo, com amplo espaço na imprensa escrita e televisada e outras mídias, com destaque para a internet dedicada ao Brasil. Conclusões apressadas, pequenos julgamentos tendenciosos, que ultrapassaram o direito à informação dos cidadãos, atropelada que estava e, ainda, está a mídia com as atribulações, decorrentes da construção do caso, pela polícia, ao instruir o inquérito policial, finalmente encaminhado à justiça.
A recusa em se referir a esse caso, até então, era para preservar os possíveis leitores destas palavras toscas, aqui colocadas como uma forma de comentar fatos e atos de relevância para a vida pública do país. Preservar de não continuarem a ser massacrados, como já estão sendo, por outros meios de comunicação e não encontrassem mais um opinando, discutindo, mastigando, lentamente, as impalpabilidades do que realmente aconteceu naquele apartamento fatídico.
Casos como os dessa menina morta brutalmente existem em todas as classes sociais, mas por se tratar de possíveis autores de classe média, ganha luzes e recebe atenção especial. Vende mais para o público, do que os milhares de outros casos semelhantes existentes na classe baixa, a dos pobres, economicamente, usando-se o mesmo raciocínio platinado do glamour de pessoas com bens, aparência saudável, roupas aceitáveis.
Isto sem falar dos mistérios e podres que o prazer mórbido faz aflorar, quando se trata de desgraça dos melhores de vida. E nem são tão “melhores” assim, mas comparados à pobreza do país, aos quase miseráveis que têm um aparelho de TV, são pessoas de outro nível social. Os inúmeros outros casos semelhantes, mas sem esse “glamour”, morrem, esvaem-se nas páginas policiais, em, no máximo, dois dias, sem direito a reportagem-novela, com lances “empolgantes” e cheios de horror.
O caso estando no Poder Judiciário e a prisão dos réus pode aplacar a sanha da mídia, embora, obviamente, ela queira os últimos capítulos, como nos filmes-de-julgamento, com cenas esdrúxulas, choros, muito sofrimento e a habitual conclusão.
Saraiva Filho 08/05/08
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