LiberdadeDaPalavra

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2.5.08

DOENTE OU HÓSPEDE?

Deve-se hospedar no hotel ou ir ao hospital, quando há uma doença que necessita de internação? A resposta parece óbvia, mas não real, caso se acredite na proposta e atitude de administradores hospitalares, ao transformar as instalações dos hospitais em estruturas hoteleiras. Sabe-se que a permanência da pessoa em ambientes de vai e vem de enfermeiras, auxiliares, médicos, distribuidores de alimentação e outros servidores, como assistentes sociais, psicólogos, nutricionistas, não é nada agradável.

Ficar doente não é agradável, principalmente, se a doença tem maior gravidade ou incômodos físicos e psíquicos, que necessitam de um local com aparência de que providências estão sendo tomadas para solucionar o problema. Transformar esse local em fonte de alegria e conforto para pessoas sãs é, no mínimo um deboche, uma agressão à inteligência humana, resguardados o carinho e um atendimento prestativo e eficiente, para tornar menos insuportável os inconvenientes de uma doença.

Acompanhar pessoas internadas é um sacrifício que só o afeto e a compreensão podem resistir às intempéries emocionais e ao desgaste físico, que estão ali frente a frente com decisões sérias, com expectativas de melhora e com um sofrimento na alma, assistindo a procedimentos inconvenientes, aplicados à pessoa do doente. Daí, a trazer para o hospital a continuidade da vida sã há um determinado exagero.

Querer amenizar um quadro de sofrimento com áreas de consumo de luxo e diversão, trazendo para os hospitais serviços de bons restaurantes, cabeleireiros, acomodações de hotéis cinco estrelas, lojas de shopping e outras diversões ou outros agradáveis locais de convivência da vida lá fora, é tripudiar sobre os males da doença.
Gera uma desconformidade quase parecida com ir ao trabalho em um banco, uma financeira, um escritório de advocacia, etc., em trajes de banho, como se fosse a uma praia.

É claro que o hospital deve oferecer condições de conforto ao paciente, com vários tipos de ajuda, principalmente, no combate à doença. Para isso há a necessidade de atitudes pouco agradáveis, mas nunca confundir mitigá-las com comportamentos e instalações que sugiram que nada está acontecendo ou que aquela permanência forçada nas dependências de casas de saúde seja um fato corriqueiro, atraente, um simples incidente sem conseqüências.

A banalização da internação hospitalar não irá retirar a dor de parentes e amigos e do próprio doente, nem disfarçá-la com comportamentos hipócritas e sem a menor substância teórica e prática, a não ser mais faturamento para os donos de hospitais e clínicas particulares. Esse modismo de transformar hospitais em hotéis, inclusive na nomenclatura, chamando pacientes de hóspedes exaspera, transtorna e até revolta os internados, prejudicados pela confusão acrescentada e os que os acompanham, traumatizando uma dor legítima de ter alguém seu em condições precárias de saúde.

Uma incongruência, uma posição constrangedora, como faturar com o sofrimento alheio.
                                             Saraiva Filho 02/05/08

criado por SARAIVA FILHO    6:40 — Arquivado em: Sem categoria

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