27.4.08
UMA VISITA DE EUROPEUS
A “tatuagem” de colonizador nunca pôde ser retirada dos europeus, mesmo com quase mais de século de uma interferência efetiva nos destinos da nação brasileira. Do mesmo modo, a marca definitiva do colonizado nunca saiu de nossa pele, seja no sentido figurado, como é o caso, ou no sentido concreto, na miscigenação de raças, que não deixa de gerar certo encanto.
Essa postura de “dono do lugar” vai ser corroborada, a partir de hoje, dia 27/04, até o dia 1º/05, com a vinda ao Brasil de 12 deputados do Parlamento Europeu, integrante da organização política da União Européia – UE. O pretexto é para conhecer de perto – leia-se inspecionar - a situação da carne bovina do país e, acreditam os brasileiros, verificar o setor de biocombustível da cana-de-açúcar.
A visita acontece em um momento em que o Brasil tenta recuperar a confiança da União Européia em carnes de gado exportadas para esse bloco econômico, que teve suas importações, temporariamente, suspensas em fevereiro deste ano, por não atenderem plenamente ao padrão do bloco. É possível, também, que durante a estada da comitiva, os deputados europeus conversem com as autoridades brasileiras sobre o aumento dos preços e a crise na distribuição de alimentos.
Integrarão essa comitiva oficial membros da Comissão de Agricultura do Parlamento Europeu, assim como o presidente desta, além de representantes desse Parlamento da Câmara para o Mercosul. Visitarão a Confederação Brasileira de Agricultura – CNA e se reunirão com o Ministro da Agricultura e outros funcionários desse departamento e do Ministério de Meio Ambiente.
Depois, visitarão a Câmara dos Deputados e do Senado brasileiros e no outro dia o grupo visitará várias fazendas e um matadouro, encontrando-se, também, com inspetores da área veterinária. E o Presidente Lula? E o biocombustível, onde ficarão nessa “olhagem vigiativa” das carnes? Vai-se à casa de uma pessoa e não se fala com seu responsável?
A confusão geral que os estrangeiros fazem do biocombustível oriundo de produtos alimentícios se junta ao temor infundado de que a plantação de cana ocupará o lugar das terras para plantio de alimentos. Aliado a isso esta a possibilidade de desestruturar seus investimentos e economia, voltada para o petróleo, criando a rejeição a essa matriz energética.
Talvez isso aconteça por desinteresse ou estratégia e não serão visitinhas dúbias como essa que irão alterar muito esse quadro.
Mas acredita-se que o interesse há no biocombustível, mesmo com a desculpa de importação de carne bovina, pois, para muitos habitantes da Europa é inconcebível a real extensão territorial brasileira, quando estão habituados a países do tamanho ou menores que quase todos os nossos Estados, apenas vistos por eles em mapas. Os preços do barril de petróleo chegam à beira da temeridade em continuar com esse insumo que, atualmente, movimenta o mundo.
E essa visita para conhecer nossa carne de gado é o prenúncio de uma forma disfarçada de conhecimento de nossa capacidade produtiva, sem desabastecimento alimentício, talvez produto de um inglório trabalho do setor diplomático brasileiro. Mas sempre com a visível e inigualável postura imponente e superior do rico que visita o terceiro mundo, por interesse próprio.
Saraiva Filho 27/04/08
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