11.10.07
BLINDAGEM NAS FAVELAS
A questão da Segurança, grande desafio de políticos e governantes, assume, às vezes, versões hilárias e, também, revoltantes, diante das sugestões apresentadas para sua implantação. Oportunismo desenfreado, como o do senador Crivella, criação política do bispo Edir Macedo, todo-poderoso da igreja do reino de deus, é um exemplo disso.
O senador propôs ao Presidente Lula incluir no Programa de Aceleração do Crescimento – PAC, da Segurança, a blindagem das casas das favelas, com a aplicação de um cimento próprio, como revestimento à prova de bala. Isto orçaria em cerca de 11,6 milhões de reais, como obra do PAC, dinheiro a ser repassado, não se sabe a quem, depois de liberado pela Casa Civil da presidência.
Habituado a lidar com milhões de reais, do parco dinheirinho dos fiéis, o senador tem a proposta igual ao da piada de mau gosto, na qual, para acabar com o namoro de uma mulher adúltera, o marido vende o sofá onde ela namora.
Essa idéia não é uma proposta de Segurança, mas de “violência segura”, de vez que não são tomadas medidas para acabar com a violência nos Estados e nos Municípios, mas fazer com que, já que existe e é inevitável, que seja uma violência com aparência ilusória de segurança.
A primeira implantação dessa blindagem seria na Favela da Providência – nome contraditório para uma favela e mais, ainda, para adotar uma medida estapafúrdia dessa - no Rio de Janeiro. Aliás, essa favela tem uma história triste na sua origem, quando ex-combatentes da Guerra de Canudos, em 1897, tiveram, do governo de então, a promessa de casa própria na capital da república, que ainda era a cidade do Rio de Janeiro. A promessa não foi cumprida e os ex-soldados tiveram que se conformar com a ocupação da área, em condições precárias, sem trabalho e nenhuma ajuda governamental.
A sina dessa favela é, desde sua origem, servir de cobaia para aplicação de propostas indecentes, como a do senador Crivella. A existência da pobreza é indispensável e necessária para preservar a atuação de muitos ditos religiosos e/ou políticos.
Sem a existência de pobres e de numerosa maioria de miseráveis que existe no país, sempre analfabetos, sem a capacidade de entender sua própria realidade, como podem existir e sobreviver os picaretas da religião, dos mandatos parlamentares e todos aqueles que vivem em torno dessas atividades? Impossível. A pobreza, aliada ao caráter dessas pessoas, que são muitas, é o alimento, a matéria-prima da corrupção.
Blindar favelas é como blindar os pobres, resguarda-los, para que não desapareçam por morte e, com isso a fonte de renda desses exploradores de pessoas ignorantes, que, por isso mesmo, são os oprimidos pela pressão social da corrupção e da incompetência.
O problema da segurança pública e, em conseqüência, da privada é a falta de educação e de saúde de qualidade.
Saraiva Filho
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