LiberdadeDaPalavra

ARTIGOS sobre fatos políticos, econômicos e sociais. Liberdade, palavras e ações.

1.10.07

AS HORAS MORTAS

Quem faz crônica diária ou semanal, sempre usa a segunda-feira como um dia chato e enche de adjetivação negativa esse dia da semana ou usa o domingo à noite como mote de seu escrever, quando não tem assunto.

Ainda não li algo parecido, como escrever sobre aquelas horas que se instalam, quando a aflição, nos fins de semana, transformam-se em uma angústia devoradora. A sensação incrível de horas perdidas, mal usadas ou mesmo, por exemplo, não realizando tarefas que se propôs fazer, durante os outros dias da semana e não foram executadas. Nem serão, talvez, pela preguiça que aparece, pelo desfalecer…, pelo cansaço de uma vida repetitiva ou pela tradicional característica de certas pessoas em adiar sempre, para o limite do insuportável, o que têm a cumprir.

Mesmo nas vidas agitadas, as pessoas jovens experimentam essas horas mortas. A balada do sábado, com péssima música, bebida quente, sem arranjar companhia, faz, no dia seguinte, reservarem-se momentos acachapantes. Mas, se deu tudo certo, a festa foi boa, a companhia agradável, há a aceitação gostosa e a glorificação, se, também, não aparecer uma ressaca não só de bebida, de cigarro ou da farra, mas da gratificação por uma noite inesquecível, também com horas mortas.

Para os de meia idade, casados, com filhos, sempre aparece uma sensação de que a rotina calafeta o bem-estar, mas, mesmo assim, se aventuram em diversões trabalhosas, com a família ou não, proporcionando horas de cansaço, insatisfação ou apatia. Os que ficaram solteiros, nessa idade, pela separação, pelo divórcio ou pela viuvez, há lacunas, mesmo com uma vida de intenso lazer, nos intervalos entre um evento e outro, até que esses “eventos” vão se tornando rotina e mais lacunas, mais reflexões, mais horas frente a frente com o nada.

As reflexões não devem ser consideradas “horas mortas”, como poderia ser inferido destas palavras. Ao contrário, são horas úteis de uma boa prestação de contas, de uma avaliação proveitosa sobre o direcionamento da vida de cada um ou de um grupo. Refletir com propósitos objetivos, com a possibilidade de propostas de vida pela frente são louváveis e úteis. Mas há o resultado de certas reflexões que geram o vazio, as horas mortas, a ansiedade inútil. E, se não gostam de seu trabalho, a compressão interna, à espera do dia seguinte.

Para os idosos que não trabalham mais, há a lembrança como substantivo de suas vidas, adjetivadas com o fato de serem bem ou mal tratados no seio da família ou no lugar onde vivem. Não há mais, para eles, o conceito tradicional de fim de semana, há a passagem do tempo, que, dependendo de cada um, de suas condições físicas e/ou econômicas, pode ser prazerosa, no contínuo do fazer constante de coisas que os agradem, assim mesmo, com horas mortas. Em outra situação, com o suplício da espera, o conformismo desfalecedor e inanimado do não saber o que fazer da vida, senão vivê-la.

Em qualquer dos casos, em qualquer situação que se encontre o ser humano, sempre há as horas mortas nos fins de semana e sorte daqueles que não as tem a vida inteira.
                                              Saraiva Filho

criado por SARAIVA FILHO    6:09 — Arquivado em: Sem categoria

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