29.9.07
ADELFA, A INTRÉPIDA
Casaram-se, ontem, dia 28 de setembro de 2007, em Buenos Aires, na Argentina, Adelfa Volpes e Reinaldo Waveache, em cerimônia no Cartório de Registro Civil. Parece uma notícia de algum pequeno jornal de duas folhas, no arremedo de uma coluna social, em uma cidade perdida nas amplitudes do território platino, sem nenhuma importância.
Não é assim. Adelfa tem 82 anos de idade e Reinaldo 24 anos e é criado por ela desde os 15 anos, depois que sua mãe morreu. Ela era solteira, sem filhos, e hoje é uma respeitável senhora casada. Ele declarou: “… sempre gostei de mulheres mais velhas e nosso amor nasceu com base no respeito e nos momentos compartilhados. (…) A diferença de idade nunca nos incomodou”. Adelfa, aparentando certo vigor, afirmou: “ Ele era pequeno, era só uma criança. Tinha 15 anos, mas desde o primeiro dia de convivência, nos complementamos muito bem. Com o tempo, a relação ganhou outras cores.
Essa notícia se tornou internacional, não pelo inusitado, em si, da relação amorosa, mas, principalmente, pela presença intensa de uma necessidade de julgamento moral que o fato gerou. A existência de preconceito, pela diferença de idade, pelas suas vidas no aspecto sexual, fazendo surgir noções de perversão, de pedofilia, pelo menos até à maioridade dele, é o ponto central na divulgação desse evento, em alguns noticiários de outros países.
No Brasil, esta ainda não é uma notícia velha, de vez que Gugu Liberato convidou o casal, por conta de seu programa no SBT, para passar – ou seria mesmo gozar? - a lua de mel na cidade do Rio de Janeiro. Ainda vem programa de TV por aí, revivendo e atualizando esse caso, que – será por acaso? – se concretizou em terras argentinas e ganhou o mundo.
Esta é uma notícia e um comentário atual, não pelo desfecho que poderá ter, mas pelo fato de ser uma mulher diferenciada e com essa idade, em que a maioria apodrece em camas de hospitais, vegeta em asilos para idosos ou se camufla de gente, no seio de sua próprias famílias, todos sozinhos e abandonados.
Umas pessoas tem, ainda, a sorte de serem reconhecidas, como Dona Canô, mãe de Maria Bethânia e Caetano Veloso ou no caso dos homens, Dorival Cayme, com seus vários filhos famosos, eles e outros menos divulgados, na condição respeitável de patriarcas e matriarcas, comandantes supremos da família.
Adelfa criou seu objeto de amar, de curtir a vida, o muito ou pouco de vida que, ainda lhe resta, em uma cruzada em nome do amor. Afrontou preconceitos e acusações criminosas e adornou o lado doce do romantismo e da esperança de muitos. Infelizmente, o romantismo tem seu lado amargo, mas ela nem pensou nisso, aventurando-se em uma jornada de estrelas cadentes e suntuosas, com céus azuis cor de lua cheia e deixou aqueles que tomaram conhecimento do ocorrido, com sua desconfianças, seus atrelamentos a valores morais e religiosos e suas angústias próprias.
Reinaldo era solteiro, não trabalha e recebeu em doação, antes de casar, todos os bens de Adelfa. Mas que abençoada seja essa união matrimonial!
Saraiva Filho
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