LiberdadeDaPalavra

ARTIGOS sobre fatos políticos, econômicos e sociais. Liberdade, palavras e ações.

27.9.07

UM HOMEM COM DOIS CACHORROS VELHOS

Uma página de flor em meio aos altos muros e paredes de concreto de um centro urbano. Não uma flor de cheiro ruim, como a podridão das ações dos políticos corruptos e inoperantes, mas a flor de gestos simples, de aparência íntima, que confirma a leveza do ser humano, quando não envolto pelo poder e pelo dinheiro.

Um homem idoso passeando na calçada com dois cachorros velhos, os três lentos, sadios, na sanidade da singeleza, andando pela calçada desta cidade de São Luís do Maranhão, que se agiganta, com os impropérios, as mazelas e os terríveis defeitos das cidades grandes.

O caminhar descompromissado, vadio de propósitos de preocupação, na irrecuperável tranqüilidade dos velhos bem sucedidos, se debate com a azáfama de um povo sofrido, na contingência da máquina propulsora de sobreviver.

As faces, cabisbaixas pelo tempo, mas altivas pela possibilidade de viver feliz, entrecruzam transeuntes e veículos apressados, como que agredindo a vida conturbada da maioria. Não há mais o tempo e o local, na integridade desses três. O tempo corre como o roçar leve da pluma, no isolamento acompanhado e bem acompanhado, nas ruas já temidas pela violência, onde os dois cachorros, alheios aos perigos de sua própria velhice, trocam passos devagar, consolados pela proteção de seu dono.

Talvez um mundo acusado de ser romântico e inapropriado, alienado dos problemas cotidianos, mas leve, indissolúvel, intransferível e único. Um mundo, só mundo, próprio, incontornável e que demonstra não haver outro por trás, cheio de peripécias, contorcionismos questionáveis, males irreparáveis, que enlameiam a imagem cristalina de rostos felizes, confirmados por gestos insofismáveis de bem-estar e atitudes calmas, cavalherescas e de bons propósitos.

Um passeio matinal, como a manutenção de uma aura, nutrido pelo desejo de se manter fisicamente vivo e com alma sobrevoando amplidões e magnitudes de um dever cumprido, que se aquieta tranqüila, face aos problemas do mundo. Um exercício físico, sob o leve sol da manhã, sem rastros de angústias ou hora marcada, na comodidade de um bairro nobre, nas calçadas de pedras portuguesas, colhendo a brisa do mar.

Os dois cachorros de vida mansa, aquinhoados pelas mordomias de um trato humano, aquecidos pelo bem-querer de seu dono, festejados pelo carinho da família, se deixam levar desapercebidos de si mesmos, pelo caminho conhecido do quarteirão costumeiro. Nada os impede de serem alegres, só a velhice sorrateira, que os torna quase incomunicáveis com a vida, mas idôneos para continuar a vivê-la.

E, de uma das paredes de pedra, uma janela se abre a contemplar a cena romântica do passeio, vigilante na observação de seus sonhos. É obsequiada por uma visão privilegiada, em uma cidade que se remói na pequenez de seus propósitos e não tem tempo nem condições de vida, para apreciar um simples caminhar de um velho com seus dois cachorros velhos.
                                                  Saraiva Filho

criado por SARAIVA FILHO    5:53 — Arquivado em: Sem categoria

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