LiberdadeDaPalavra

ARTIGOS sobre fatos políticos, econômicos e sociais. Liberdade, palavras e ações.

21.4.06

O HOMEM QUE NÃO CONSEGUIA LER PAPEL

 

 

 

Não era analfabeto. Tinha doutorado em Ciências Sociais e uma graduação em Sociologia. Não tomava medicamentos que pudessem turvar sua concentração e visão, nem sofria de Distúrbio de Déficit de atenção. Mas não conseguia ler nada em papel, revistas, livros, jornais, nada que, também, tivesse um conjunto de palavras ou períodos muito longos. Nem bula de remédio. Uma situação desagradável, para quem ministrava a disciplina Relações de Classe Social, no Mestrado da Federal de sua cidade natal.

Hamilton se sentia amputado nisso que, a princípio, considerou uma deficiência e chegou a consultar diversos médicos e a fazer vários exames, físicos e psicológicos, mas nada fora encontrado que justificasse seu "problema". Aceitava, sem desconforto, ler artigos breves na tela do computador, redigir mensagens e conversar no MSN. E assistia a filmes com legendas.

Nos romances de costumes e livros científicos, de que tanto gostava, que iam se amontoando sobre sua mesa de trabalho, porque ele os comprava com freqüência e se forçava a ler, dificilmente passava da terceira ou quarta página. Um espécie de idiossincrasia se instalara em sua mente e, por mais que insistisse, , acomodando-se em sua poltrona predileta, terminava logo por fechar o livro e a deter-se em pensamentos de outra ordem, embora ligados ao tema.

Considerava-se uma pessoa voltada para o futuro, com pensamentos criativos sobre novas formas de relações sociais, que iam além da globalização e do consumismo da sociedade capitalista atual. Não tinha a desculpa para seu comportamento, que aos outros parecia estranho, a interrupção de mulher e filhos, de vez que era divorciado e morava sozinho., produto da distância de seu curso na França, antes da transformação por que passou esse país, com a emancipação das colônias, principalmente as africanas.

Não conseguia entender o avanço tecnológico em tantos campos do conhecimento e, ao mesmo tempo, a mesmice burocrática em certos comportamentos na relações sociais, onde os benefícios da informática não eram utilizados, principalmente no Brasil e, pior, em sua ilha aconchegante, São Luís, capital do Estado do Maranhão. Só as contradições inerentes à natureza humana poderiam explicar.

O controle social dos serviços públicos, na nossa sociedade de massa, praticamente não existia, embora, em alguns órgãos, tivesse a presença de computadores em rede, como símbolo de desenvolvimento de certas atividades. Nem sempre esses computadores eram usados e, quando isso acontecia, o usuário adotava o mesmo raciocínio e procedimento da época do papel, sem se adaptar, realmente, a uma gestão operacional informatizada. Algo que dispensasse os famosos arquivos de aço ou as pastas em material plástico, que substituíram aquele calhamaço mastodôntico de A a Z, com a parte frontal preta.

Havia uma justificativa impiedosa para tal procedimento e sempre há para a acomodação. Não se rompe impunemente com o passado. O argumento era de que os computadores não eram confiáveis: havia queda de energia; eram frágeis e deterioravam seus componentes com a maior facilidade: e existiam limitações quanto a programas para fazer determinadas tarefas, como confrontar dados. Enfim, eram quase um acessório, auxiliando no trabalho diário. Essa ingenuidade escamoteava o poder dessas máquinas e demonstrava a preguiça mental em encontrar caminhos de execução, que substituíssem programas inexistentes e a falta de corrente elétrica podia ser eliminada com a instalação de no break, sem que nenhum desses fatores pudesse gerar a perda de arquivos no processador. Além do que podiam se guardadas as informações importantes em CD ou equivalentes, sem presença de grandes locais de armazenamento, sua conservação e manutenção e com a facilidade de proceder a cópias, com a maior facilidade.

Em um recente curso de aperfeiçoamento que fizera na Universidade de Havard, utilizava seu note-book para todas as atividades escolares, de simples anotações em sala de aula a trabalhos e pesquisa. Havia colegas seus que faziam isso por meio de celulares avançados, sem que uma folha de papel fosse usada. Sobre o balcão de atendimento, havia um pequeno computador em que qualquer pessoa preenchia formulários ou simplesmente fazia sugestões ou reclamações ou agendava entrevistas com os professores em seus gabinetes, se não estivesse ali com o seu instrumento de informática.

Hamilton não se conformava com os textos longos, com a ausência de síntese. Apreciava a concisão da poesia. Na fase de sua dificuldade, chegou ao absurdo de pensar em contratar uma pessoa, uma leitora, mas viu a inconveniência em distrair-se com outros pensamentos e perder seu tempo, além de querer discutir o que era lido, se a pessoa tivesse condição para isso. E, se fosse mulher… outras distrações poderiam surgir, na saudável atração que deve haver entre os sexos.

Conformado com o que chamou de sua deficiência, utilizava-se do que lhe oferecia a cada vez mais ampliada rede mundial de computadores, sem mais questionamentos ou reclamações
                                                                 Saraiva Filho

 

 

criado por SARAIVA FILHO    12:52 — Arquivado em: Sem categoria

1 Comentário »

  1. Comentário por Maria — 21.4.06 @ 17:39

    Impressionante! Acho que há um processador dentro de vc, que aprimora o uso deste talento… Você sabe exatamente como fazer as coisas.
    Mais uma vez li faminta sua escrita e sempre com meio sorriso, ao lembrar que meu estilo de dialogar o deixa pelas tabelas…
    Um beijo,
    Maria

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