LiberdadeDaPalavra

ARTIGOS sobre fatos políticos, econômicos e sociais. Liberdade, palavras e ações.

11.4.06

LITERATURA DE BLOG

          A idéia surgiu como um protesto. Depois que inventaram blog na internet, todos se acharam literatos, mesmo em forma de diários insípidos de adolescentes. E esse recurso de informática criou má fama. Uma leva de textos açucarados ou simplesmente sem nexo nos fez pedir silêncio, como se estivéssemos não em frente à tela do computador, mas se pudéssemos estar em alguma biblioteca de autores consagrados e aparecessem baderneiros. Esse grito de alerta aconteceu em Curitiba, na Revista Oroboro, dizendo basta a CDs, blogs e festivais.
           Em meio a essa confusão, Marina, que fazia poesias, criou um blog para divulgá-las. Não pôde postar seus contos, porque não sabia  colocá-los no formato certo. Tomou como um despretensioso espaço para suas angústias literárias, sem alarido ou a grandiosidade de um site. Tinha em mente que era esse o futuro próximo e mais difundido de nova configuração do livro e não mais a ditadura das editoras e todo o processo dolorido de feitura de um, com todas as suas fases, desde a aceitação pela editora até à noite de autógrafos, incluída a distribuição. A divulgação via informática seria natural pelo processo de busca, com o apoio dos cookies, desde que para o livro sair grátis para o usuário, houvesse um ou alguns patrocinadores. Essa seria a remuneração do autor, como nos livros encomendados por empresas.
          Não via necessidade do conhecido chavão de que era preciso pegar, guardar, acariciar o papel, naquela relação sentimental e nostálgica das bibliotecas particulares e públicas. Continuariam os bibliófilos, mas sentados em suas confortáveis poltronas , lendo ou armazenado seus livros em arquivos de computador. Para os mais renitentes, que copiassem na impressora e os mandasse encadernar, obedecendo ao feitio original. Assim, não haveria carência de espaço físico, nem a conservação e manutenção dos livros, como não o há para criá-los. Bastaria um computador de última geração, talvez na forma de um celular ou algo semelhante, uma tela e a rede mundial de informática, que talvez não se chamasse mais internet.
            Com essas idéias na cabeça, seu sonhos e fantasias à mão, começou a postar poesias e a saborear os comentários, inicialmente de amigos, escritos logo abaixo de cada texto. A cada dia Marina se empolgava com a idéia de ruptura com o antigo formato do livro e foi escrevendo no tempo livre do seu trabalho e dos afazeres domésticos, fazendo crescer seu blog nas madrugadas, com uma velocidade assustadora.
           Sua luta individual em tirar a mediocridade dos blogs foi se espalhando pela própria internet, na base do teclado a teclado e passou a ser não só entre amigos. Foi assim que chegou ao conhecimento de Marcelo essa espécie de pacto revolucionário. Ele pesquisou com amigos o MSN dela e, com a maior desfaçatez, se apresentou como também poeta e contista. Tiveram uma conversa formal de artistas, mas, desde o início, se instalou um respeito recíproco, principalmente quando ela usou uma expressão poética de forte conteúdo e ele respondeu com outro verso e, de frase em frase, fizeram sem pretensões, um poema em co-autoria.
           Como se novos cânticos surgissem, emoldurando encontros, estabeleceu-se uma amizade que foi se transformando, paulatinamente, em sonoros arroios de amor, na urdidura de momentos fugidios e horários carcomidos. Ela era casada, mãe de duas filhas e um pouco mais velha do que ele. As intermitências do amor foram gerando ousadias que não se permitiam vulgares. Eram bem qualificadas para um amor à distância, onde a palavra escrita substituía os cinco sentidos tradicionais, em descrições que geravam emoções, na dosagem de um sentimento idêntico ao presencial. Os eflúvios da pujança do amor foram modificando e substituindo a conversa inicial, ficando sempre presente a caracterização do blog ou do site como uma nova forma, a longo prazo, talvez, de se apresentar o livro.
           A inconveniência dos horários em que se falavam via internet  foi acrescido por outros momentos mais impiedosos com o estado civil dela. Não ficava muito confortável jogar beijos e fazer outros gestos carinhosos para a web cam, como se fossem para o nada, em pleno dia, com pessoas passando pelo studio dela.
           Os blogs cresceram, sempre com a troca de poemas entre eles como comentários e o tempo amoleceu a emoção. Vieram os sites e os livros eletrônicos de cada um, formulando vidas literárias próprias.
                                                                  Saraiva Filho

 

 

criado por SARAIVA FILHO    16:29 — Arquivado em: Sem categoria

VOAR EM TUAS COSTAS

 

Vou voar sobre ti… gostas…

ouvir sons, sentado sobre tuas costas,

arranhar teus óleos

nas manhãs de outono,

para contraste de frio

e de abrolhos

e te sentir com sono,

quando o sol nascer

no jardim de tulipas brancas,

no alvorecer com teu encômio,

sobre delícias tantas.

                                     Saraiva Filho

criado por SARAIVA FILHO    10:00 — Arquivado em: Sem categoria

MAR ALTO

 

Não quero você lagoa,

água presa

ou rio, com suas margens-represa.

Quero você mar alto,

para que de um salto

se sinta livre… à toa,

no sonho e na realidade

e que tudo seja verdade.

                                   Saraiva Filho

 

criado por SARAIVA FILHO    4:26 — Arquivado em: Sem categoria

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